Léon Dennis
A música desperta na alma impressões de arte e de beleza que são a alegria e a recompensa dos espíritos puros, uma participação na vida divina em seus encantos e seus êxtases.
A música, melhor que a palavra, representa o movimento, que é uma das leis da vida; eis por que a música é a própria voz do mundo superior.
Para exprimir os esplendores da obra universal é necessária a beleza suprema da forma. Dissemos que nem a poesia, nem a música suportam a mediocridade. No entanto, apesar da indigência estética do nosso tempo, é preciso reconhecer e louvar os esforços de alguns autores que, em suas tentativas, se aproximaram do ápice e conseguiram realizar obras onde passa uma inspiração, uma radiação da beleza soberana. Pela ópera, notadamente, conseguiram mover a fibra dos entusiasmos generosos das almas.
Isso porque, para gerar, para produzir obras geniais capazes de elevar as inteligências até os pontos mais altos do pensamento, até o ideal de beleza perfeita, é preciso, inicialmente, criar a si mesmo, edificar sua própria personalidade e torná-la capaz de experimentar, de compreender os esplendores da vida superior e a eterna harmonia do mundo.
Que forças, que emanações, que consolações, que esperanças podemos passar a outras almas, se em nós mesmos temos apenas obscuridade, dúvida, incerteza e fraqueza? O que se poderia esperar de espíritos céticos, fechados em todas as impressões elevadas, surdos a todas as vozes, a todos os ecos do Além?
A miséria estética da nossa época explica-se pela impotência da alma contemporânea em conceber uma fé esclarecida, uma concepção maior e mais elevada da beleza universal.
Por conseqüência, deve-se apreciar as exceções que se produzem e o entusiasmo de raros autores que se esforçam para conduzir a opinião em direção às regiões do ideal.