Poesia e música*
CARTA ABERTA AOS DIRETORES DAS ESCOLAS
DE MÚSICA
Publicado no Jornal de Música – 1978
João de Abreu Borges
Um
axioma da sensibilidade: o corpo como peça fundamental para a evolução de uma
música.
Como
muitas coisas que nos caracterizam como raça humana cada vez mais longe de sua
humanidade, de sua naturalidade, a perda da resposta somática ao estímulo
sonoro nos deixa emocionar apenas 30 ou 40% da plenitude que é embalar-se na
arte musical.
Da
ciência da felicidade absoluta nossa evolução nos abandona ignorantes, enquanto
os povos ditos primitivos ecoam a vida sob a luz do sol ou da lua.
Poderíamos perguntar: haverá uma
diferença básica entre esses dois artistas: o ator e o músico? Será que um ator
é colocado mais diante de sua arte, penetra mais fundo em sua criatividade do
que um músico? Será que um músico se torna no momento da criação simplesmente
um instrumento de sua inspiração e o ator não, este inspira-se, transporta-se e
desponta para a realidade exterior na forma de sua arte? Este, quando finda seu
processo criador no teatro, foi mais adiante e já não é a mesma pessoa de
antes.
É inegável que o teatro desenvolve a
fundo as potencialidades de quem nele trabalha, porque ativa uma série de
exercícios que visam diretamente a uma viagem por dentro de todas as camadas
que compõem a personalidade do artista.
Talvez, para que o músico alcançasse
isso, fossem necessárias radicais mudanças no seu comportamento em relação à
música. Por exemplo, seu aprendizado não se restringiria apenas ao domínio
técnico de seu instrumento específico. Isso poderia se estender a outras
situações como utilizar seu corpo na dança; desenvolver as múltiplas formas de
seu corpo “executar” uma música.
Alguém poderia classificar isso como
“expressão corporal”, e acertaria em cheio. Essa também é uma forma do músico
penetrar mais um pouco no universo da música, modificando suas atitudes e
refletindo o som em um ato físico.
Poderia também fazer uso da palavra para
expressar os sentimentos que lhe estariam ocorrendo durante a audição de uma
música, quando alguém lhe daria um fio melódico e ele cantaria em versos da
forma mais espontânea possível o que estaria sentindo naquele momento. Ou,
quase que ao contrário, ele próprio procuraria construir fios melódicos através
dos mais variados movimentos de outro
instrumento natural: a voz (sussurro, grito, uivo, mímica...). Aí, já
estamos esbarrando mais uma vez nos exercícios de laboratório de teatro. Mas
por que isso só é feito em teatro e as escolas de música desconhecem essa
atividade?
Muitas outras coisas poderiam ser feitas
para que não só a inspiração e a técnica fossem a exigência básica no
ensinamento da música, mas que a isso fossem acrescentadas outras manifestações
que tanto transformariam o “músico” como também o “homem” e que determinassem o
fim dessa terrível característica da música ser uma espécie de masturbação que
gera um prazer de momento, nada consequentizando, não chegando sequer a
esbarrar nos cantos profundos do espírito humano.
Poderíamos estabelecer uma identidade
entre arte e artista? Acredite que, na maioria dos casos, não. O artista
envolve-se pelo manto da criatividade apenas no momento do “transe” para,
imediatamente após, despir-se de toda a sua manifestação e reassumir-se como
indivíduo comum, plenamente imperfeito e limitado como todas as outras pessoas,
em contraste com o que escrevia, com o que pintava ou com o que tocava momentos
antes.
Talvez mais do que nunca registrou-se
tamanha procura por parte das pessoas de reencontro com o fenômeno artístico: a
tentativa de redimensionar a “arte de viver” através do “prazer que cria”, essa
miraculosa concepção do novo, do belo. A fecundação de si próprio e a cada nova
relação um novo ser. Mas... (nessa vida há sempre um desses adjuntos adverbiais
para frear um sonho e dar corda ao tempo) é preciso que haja consciência do ato
criador; é preciso perceber o que acontece antes, durante e depois da criação
e, acima de tudo, perceber que cada momento é uma extensão (e desenvolvimento)
de seu trabalho específico.
O pintor, por exemplo, cria no momento
em que pinta. Mas se ele conseguir “captar” seu estado de espírito naquele
momento, dar-se-á o inevitável: ele sustentará esse estado até outros momentos,
onde ele estará não só com um pincel entre os dedos, mas com uma caneta. Ou
ainda com um remo. Ou um brinquedo. Ou uma máquina (até mesmo uma máquina), ou
qualquer coisa que seja, e aí ele reunirá condições de dar continuidade ao seu
processo de mudança da realidade em que vive (de dentro/de fora). Então, nesse
nível de trabalho, poderemos identificar ambos (arte/artista) numa só dimensão:
poderemos dizer que o artista transforma aquilo que trabalha com a mesma
energizá-lo que irá transformá-lo como ser humano.
É preciso fazer de si mesmo o principal
objeto de arte. Fazer de palco, de tela, de cordas, etc, o seu próprio espírito
e chegar à síntese de todas as manifestações artísticas: o Homem. E um dia
(quando?) descobrir o “viver” como o último ato de criação, ou o primeiro e
único de eternidade.
Essas são as observações do artista que
sou, consciente de toda a alquimia que isso representa, isto quer dizer que a
teoria não sobrevoou minhas palavras.