OSCAR NIEMEYER,
A REGÊNCIA DO FUTURO
por: joão de abreu borges
O que se vê de grande ou pequeno no mundo começa a projetar-se
a partir do que temos de grande ou pequeno dentro de nós.
Os irmãos Marx, comediantes norte-americanos cujo humor
possuía características filosóficas, criaram um belo diálogo resumido em três
linhas: “Olha, há um tesouro na casa ali ao lado!”. Ao que o outro comentou: “Mas
não há nenhuma casa ali ao lado!”. O primeiro sentenciou: “Então, construiremos
uma!”.
Oscar Niemeyer não morreu ontem, ele apenas esqueceu de
repente de continuar vivendo. No “andar de cima” ele deve estar lamentando os
projetos que deixou por fazer aqui embaixo, principalmente o de continuar
colaborando para melhorar as relações sociais justas entre os seres humanos.
Cada um de nós tem uma espécie de fio invisível que nos
mantém ligados a uma estrutura orgânica maior, que por sua vez também está
ligada a outra estrutura maior ainda (é claro que esta palavra “maior”
refere-se a uma pulsação vibrante, meio que física, meio que metafísica.).
Oscar Niemeyer tinha consciência de sua vida como resultado
de uma evolução histórica da humanidade, e não se perdia nunca principalmente
com relação às suas convicções políticas, ampliando seu olhar sobre a
humanidade através do comunismo que, num sentido lato, alcançava as linhas
simples e profundas de sua arquitetura.
Uma canal de televisão, enquanto mostrava imagens da obra de
Niemeyer, colocava ao fundo junto à voz dele, uma bachiana de Villa-Lobos que,
como tal, era cheia de nuances melódicas, poder-se-ia mesmo dizer que esta
música possui a sinuosidade marcante da arquitetura de nosso genial e simples
brasileiro comunista.
Como se intuísse tanto quanto Einstein (que afirmou ser
curvo o Universo), grande marca desta arquitetura era curva, assim como as
retas apareciam em linhas precisamente infinitas.
Não morrendo, Oscar Niemeyer extrapolou a ideia frágil de se
estar apenas vivo, mas não se viver intensamente, tal como prescreveu Vinícius
de Moraes em um de seus poemas.
O ser humano tem em si todas as possibilidades que vê
projetadas diante de seu olhar: se este vem do medo, não verá mais do que
sombras; se vem da ignorância, não verá mais do que a incompreensão; se vem da
sensibilidade, estará aberto a todos os impulsos positivos que o Universo
guarda para nós.


