sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Os tempos de ir e vir

Gláucia Leal

Para algumas pessoas, mais assustador do que acessar a própria história e se apropriar dela talvez seja vislumbrá-la em pedaços disformes. Em sua obra, Freud nos lembra que histórias são contadas a posteriori, o que nos leva a pensar que podem ser recontadas, revistas e reelaboradas de acordo com aquilo que faz sentido e pode ser aceito pelo paciente. Como num mosaico, fragmentos de realidade e fantasia podem ser e ganhar novos coloridos, cores inusitadas.

No jogo do carretel (for-da, em alemão), protagonizado pelo neto de Freud, a ação ganha sentido no tempo; sujeito e objeto se transformam, em participantes da encenação (uma espécie de pequena história de ir e vir é criada pelo bebê). Quando ele vê o objeto se afastar, sumir (for = ir embora) e depois o reavê (da = ali, voltar) está “ensaiando” a aceitação do afastamento da mãe – e admitindo seu retorno. Por meio do jogo, a criança começa a perceber a temporalidade ainda incipiente, o antes e o depois ganham contornos para abrigar a possibilidade da narrativa. Assim, ela conquista espaços, compondo rudimentos de uma história de si mesma. Mais tarde, o mesmo jogo se dará com as palavras. Ao longo da vida, como páginas de um livro, as narrativas vão e vêm, acrescendo-se de significados.

Este texto faz parte de um box ilustrativo de uma matéria intitulada OS ENCANTOS DA NARRATIVA, de Jeremy Hsu, publicada na revista MENTE&CÉREBRO (www.mentecerebro.com.br), Ano XVI, nº 197, Editora Duetto