quinta-feira, 29 de março de 2012

DE OLHO NO TEMPO

O namoro do Chico Buarque com a cantora ruiva Thais Gulin rendeu para nós
este primor de blues ESSA PEQUENA, cuja letra vai aí abaixo. Mas rendeu
também a interessante crônica UM TEMPO SEM NOME da escritora Rosiska Darcy
de Oliveira sobre “o novo conceito de envelhecer”. Também segue abaixo.


Essa Pequena

Chico Buarque

Meu tempo é curto, o tempo dela sobra
Meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora
Temo que não dure muito a nossa novela, mas
Eu sou tão feliz com ela

Meu dia voa e ela não acorda
Vou até a esquina, ela quer ir para a Flórida
Acho que nem sei direito o que é que ela fala, mas
Não canso de contemplá-la

Feito avarento, conto os meus minutos
Cada segundo que se esvai
Cuidando dela, que anda noutro mundo
Ela que esbanja suas horas ao vento, ai

Às vezes ela pinta a boca e sai
Fique à vontade, eu digo, take your time
Sinto que ainda vou penar com essa pequena, mas
O blues já valeu a pena



Um tempo sem nome****

*Rosiska Darcy de Oliveira
(O Globo, 21/01/12)


Com seu cabelo cinza, rugas novas e os mesmos olhos verdes, cantando
madrigais para a moça do cabelo cor de abóbora, Chico Buarque de Holanda
vai bater de frente com as patrulhas do senso comum. Elas torcem o nariz
para mais essa audácia do trovador. O casal cinza e cor de abóbora segue
seu caminho e tomara que ele continue cantando “eu sou tão feliz com ela”
sem encontrar resposta ao “que será que dá dentro da gente que não devia”.

Afinal, é o olhar estrangeiro que nos faz estrangeiros a nós mesmos e cria
os interditos que balizam o que supostamente é ou deixa de ser adequado a
uma faixa etária. O olhar alheio é mais cruel que a decadência das formas.
É ele que mina a autoimagem, que nos constitui como velhos, desconhece e,
de certa forma, proíbe a verdade de um corpo sujeito à impiedade dos anos
sem que envelheça o alumbramento diante da vida .

Proust, que de gente entendia como ninguém, descreve o envelhecer como o
mais abstrato dos sentimentos humanos. O príncipe Fabrizio Salinas, o
Leopardo criado por Tommasi di Lampedusa, não ouvia o barulho dos grãos de
areia que escorrem na ampulheta. Não fora o entorno e seus espelhos, netos
que nascem, amigos que morrem, não fosse o tempo “um senhor tão bonito
quanto a cara do meu filho“, segundo Caetano, quem, por si mesmo, se
perceberia envelhecer? Morreríamos nos acreditando jovens como sempre fomos.

A vida sobrepõe uma série de experiências que não se anulam, ao contrário,
se mesclam e compõem uma identidade. O idoso não anula dentro de si a
criança e o adolescente, todos reais e atuais, fantasmas saudosos de um
corpo que os acolhia, hoje inquilinos de uma pele em que não se reconhecem.
E, se é verdade que o envelhecer é um fato e uma foto, é também verdade que
quem não se reconhece na foto, se reconhece na memória e no frescor das
emoções que persistem. É assim que, vulcânica, a adolescência pode brotar
em um homem ou uma mulher de meia-idade, fazendo projetos que mal cabem em
uma vida inteira.

Essa doce liberdade de se reinventar a cada dia poderia prescindir do
esforço patético de camuflar com cirurgias e botoxes — obras na casa
demolida — a inexorável escultura do tempo. O medo pânico de envelhecer,
que fez da cirurgia estética um próspero campo da medicina e de uma
vendedora de cosméticos a mulher mais rica do mundo, se explica justamente
pela depreciação cultural e social que o avançar na idade provoca.

Ninguém quer parecer idoso, já que ser idoso está associado a uma sequência
de perdas que começam com a da beleza e a da saúde. Verdadeira até então,
essa depreciação vai sendo desmentida por uma saudável evolução das
mentalidades: a velhice não é mais o que era antes. Nem é mais quando era
antes. Os dois ritos de passagem que a anunciavam, o fim do trabalho e da
libido, estão, ambos, perdendo autoridade. Quem se aposenta continua a
viver em um mundo irreconhecível que propõe novos interesses e atividades.
A curiosidade se aguça na medida em que se é desafiado por bem mais que o
tradicional choque de gerações com seus conflitos e desentendimentos. Uma
verdadeira mudança de era nos leva de roldão, oferecendo-nos ao mesmo tempo
o privilégio e o susto de dela participar.

A libido, seja por uma maior liberalização dos costumes, seja por
progressos da medicina, reclama seus direitos na terceira idade com uma
naturalidade que em outros tempos já foi chamada de despudor. Esmaece a
fronteira entre as fases da vida. É o conceito de velhice que envelhece.
Envelhecer como sinônimo de decadência deixou de ser uma profecia que se
autorrealiza. Sem, no entanto, impedir a lucidez sobre o desfecho.

”Meu tempo é curto e o tempo dela sobra”, lamenta-se o trovador, que não
ignora a traição que nosso corpo nos reserva. Nosso melhor amigo, que
conhecemos melhor que nossa própria alma, companheiro dos maiores prazeres,
um dia nos trairá, adverte o imperador Adriano em suas memórias escritas
por Marguerite Yourcenar.

Todos os corpos são traidores. Essa traição, incontornável, que não é
segredo para ninguém, não justifica transformar nossos dias em sala de
espera, espectadores conformados e passivos da degradação das células e dos
projetos de futuro, aguardando o dia da traição. Chico, à beira dos setenta
anos, criando com brilho, ora literatura, ora música, cantando um novo
amor, é a quintessência desse fenômeno, um tempo da vida que não se parece
em nada com o que um dia se chamou de velhice. Esse tempo ainda não
encontrou seu nome. Por enquanto podemos chamá-lo apenas de vida.

* ROSISKA DARCY DE OLIVEIRA é escritora.

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