O conto abaixo publicado foi extraído do livro
A VIDA QUE COMEÇA AOS 60... Os "Novo Velhos"
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João de Abreu
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O amor existe?
TUDO POR CAUSA DO DIA DOS
NAMORADOS...
JOÃO DE ABREU BORGES
O que não enfrentamos em nós mesmos
encontraremos como destino.”
Carl Gustav Jug
Essa questão foi levantada num roda de amigos, por sinal
quase todos bastante pessimistas, cada um contando o seu caso: por que
desistiram do amor.
“Mas vocês estão se referindo a casos de decepção individual”,
eu disse, interferindo na conversa com a expectativa de uma criança assustada.
Diante de um ou dois que se retiraram e outros um ou dois que permaneceram,
porém com olhos semi arregalados, eu confirmei que “o amor, visto sob uma ótica
individual, realmente é difícil de encontrar não só hoje em dia como em
qualquer época, principalmente quando se anda mal acompanhado ou frequentando
lugares em que a possibilidade de desencontros é muito provável”.
Um dos que se retiraram da conversa mal iniciada saiu resmungando:
“O amor já era! É só decepção que a gente encontra na vida!” Saiu, e não me deu
tempo para perguntar o que ele tem feito para mudar esse quadro... Ou será que
ele espera que caia do céu a solução para esse problema?
Mas ainda restavam dois pares de ouvidos a me escutar, mesmo
que com certa impaciência.
“Se o ser humano pensa que o amor é algo restrito a uma
relação social de indivíduo para indivíduo, dificilmente vai conseguir sucesso
em suas pretensões, porque o indivíduo é egoísta por natureza, e esta natureza
é individual, o que significa mesmo
uma atitude voltada para si.
Nesse nível, até nos aproximamos da condição animal,
procurando satisfazer nossos desejos o mais rápido possível, mesmo que da forma
mais superficial imaginável.
O que o indivíduo
tem que superar é o medo de tornar-se cidadão,
o que o eleva à condição de um ser grupal, coletivo, social, e isso amplia seu
raio de visão e consequente código de ação para atuar diante de uma
possibilidade maior de obter ganhos em suas pretensões.
Enquanto cidadão,
o ser humano é regido por leis mais amplas, que mais o aproximam interiormente
dos outros e assim possibilitam que saia de dentro de si um pouco e também
compartilhe sua existência. Isto significa compartilhar responsabilidades.
Estas irão gerar uma atitude mais coerente e firme em busca da felicidade, em
termos de relações sociais. Isto quer dizer que assumimos mais nossas culpas e
não as transferimos de imediato para os outros, exigindo mais de nós e
olhando-nos como uma possibilidade viva de transformação. Automaticamente,
permitimos aos outros que também se transformem segundo suas próprias decisões.
Quando se assume como um ser social, o cidadão torna-se mais
visível e consequentemente mais procurado, o que o torna passível de maiores
encontros pessoais bem sucedidos, já que não mais se volta apenas para si: agora
se encontra aberto a perdas e ganhos que, no mínimo, ele passa a ter
consciência por que acontecem em sua vida.
“Perdas nos servem
para crescer como seres humanos; ganhos
nos servem para ampliar horizontes a partir de vitórias pessoais. Assumimos com
orgulho derrotas previsíveis e com humildade vitórias adquiridas”. Isso poderia
estar pensando um dos meus dois ouvintes naquele momento ainda desconfiados.
Mas não fui interrompido por nenhum deles que, ao mesmo
tempo surpresos e receptivos, me ouviam não com alegria, mas agora com certo ar
de curiosidade.
E eu continuei: “Após o primeiro instante de egoísmo, quando
somos apenas um indivíduo, chegamos a
este segundo estágio de evolução que é ser um cidadão”.
“E após isso?”, o mais curioso dos meus dois silenciosos
interlocutores poderia estar pensando e eu cuidei logo de continuar minha linha
de pensamento.
“Agora estamos diante de uma etapa difícil de ser alcançada
e que irá facilitar em muito nossas relações pessoais, pois vai ampliar mais
ainda nosso ângulo de visão e consequente espaço de atuação em nossas vidas.”
“Estou me referindo ao ser
universal, o que em outras palavras podemos chamar de um cidadão que vai mais longe ainda e começa a ver a vida sob a ótica
de Deus – ou qualquer ponto máximo que uma pessoa acredita que possa
alcançar, seja qual for a religião, ou a crença ou a visão política que o
ajudará a atingir este novo horizonte.”
“A ótica de Deus
não atinge apenas aqueles com quem estamos nos relacionando bem enquanto
cidadãos. O ser universal completa-se
em si mesmo, evoluindo através da consciência de um Deus descoberto e não
inventado, de reflexões íntimas voltadas para uma Verdade Superior etc. Este ser
sabe que, a partir do momento em que não mais nos consideramos tão mínimos e
irrelevantes na vida, passamos a compreender mais profundamente as pessoas e os
lugares por onde passamos.”
“Quando alcançamos este patamar, abraçamos um Universo de
possibilidades porque passamos a estar presentes em todo o Universo na pessoa
Daquele que, de uma forma ou de outra, nos coloca diante do mesmo plano que os
nossos semelhantes, ou seja, filhos do mesmo Pai, herança do mesmo Encontro.”
“A partir daí – continuo eu escrevendo aqui e reproduzindo o
que falei entre meus dois amigos – queiramos ou não, estaremos sempre próximos de
todos, mesmo dos que se encontram distantes de nós.”
“O amor, enfim, exige uma consciência universal para que possamos
no plano individual sermos felizes e podermos dizer: o amor existe entre os
homens, sim!”.
Quando percebi, meus dois amigos já não estavam presentes.
Preguei no deserto? Não sei... Algumas sementes vingam sob a terra, outras não.
Minha consciência possibilita enxergar o mundo como um contabilista que deixa
para chegar o final do mês – o universal
– e fazer o balanço de perdas e ganhos, para depois, sim, extrair quanto ganhou
por dia – o indivíduo.
Meus amigos que se dispersaram foram sementes que um dia,
certamente e de forma definitiva, serão germinadas pela consciência de que
nenhum ser é inseparável dos outros, sendo todos irmãos de jornada, seja esta
social ou universal, atinja apenas um grupo ou toda a humanidade.

VERA LYRIO fez comentário que está registrado em www.oquemeusamigosdizem.blogspot.com.
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