sexta-feira, 12 de julho de 2013

Poesia e música*
CARTA ABERTA AOS DIRETORES DAS ESCOLAS DE MÚSICA
Publicado no Jornal de Música – 1978


João de Abreu Borges




Um axioma da sensibilidade: o corpo como peça fundamental para a evolução de uma música.
Como muitas coisas que nos caracterizam como raça humana cada vez mais longe de sua humanidade, de sua naturalidade, a perda da resposta somática ao estímulo sonoro nos deixa emocionar apenas 30 ou 40% da plenitude que é embalar-se na arte musical.
Da ciência da felicidade absoluta nossa evolução nos abandona ignorantes, enquanto os povos ditos primitivos ecoam a vida sob a luz do sol ou da lua.



Poderíamos perguntar: haverá uma diferença básica entre esses dois artistas: o ator e o músico? Será que um ator é colocado mais diante de sua arte, penetra mais fundo em sua criatividade do que um músico? Será que um músico se torna no momento da criação simplesmente um instrumento de sua inspiração e o ator não, este inspira-se, transporta-se e desponta para a realidade exterior na forma de sua arte? Este, quando finda seu processo criador no teatro, foi mais adiante e já não é a mesma pessoa de antes.
É inegável que o teatro desenvolve a fundo as potencialidades de quem nele trabalha, porque ativa uma série de exercícios que visam diretamente a uma viagem por dentro de todas as camadas que compõem a personalidade do artista.
Talvez, para que o músico alcançasse isso, fossem necessárias radicais mudanças no seu comportamento em relação à música. Por exemplo, seu aprendizado não se restringiria apenas ao domínio técnico de seu instrumento específico. Isso poderia se estender a outras situações como utilizar seu corpo na dança; desenvolver as múltiplas formas de seu corpo “executar” uma música.
Alguém poderia classificar isso como “expressão corporal”, e acertaria em cheio. Essa também é uma forma do músico penetrar mais um pouco no universo da música, modificando suas atitudes e refletindo o som em um ato físico.



Poderia também fazer uso da palavra para expressar os sentimentos que lhe estariam ocorrendo durante a audição de uma música, quando alguém lhe daria um fio melódico e ele cantaria em versos da forma mais espontânea possível o que estaria sentindo naquele momento. Ou, quase que ao contrário, ele próprio procuraria construir fios melódicos através dos mais variados movimentos de outro  instrumento natural: a voz (sussurro, grito, uivo, mímica...). Aí, já estamos esbarrando mais uma vez nos exercícios de laboratório de teatro. Mas por que isso só é feito em teatro e as escolas de música desconhecem essa atividade?
Muitas outras coisas poderiam ser feitas para que não só a inspiração e a técnica fossem a exigência básica no ensinamento da música, mas que a isso fossem acrescentadas outras manifestações que tanto transformariam o “músico” como também o “homem” e que determinassem o fim dessa terrível característica da música ser uma espécie de masturbação que gera um prazer de momento, nada consequentizando, não chegando sequer a esbarrar nos cantos profundos do espírito humano.
Poderíamos estabelecer uma identidade entre arte e artista? Acredite que, na maioria dos casos, não. O artista envolve-se pelo manto da criatividade apenas no momento do “transe” para, imediatamente após, despir-se de toda a sua manifestação e reassumir-se como indivíduo comum, plenamente imperfeito e limitado como todas as outras pessoas, em contraste com o que escrevia, com o que pintava ou com o que tocava momentos antes.
Talvez mais do que nunca registrou-se tamanha procura por parte das pessoas de reencontro com o fenômeno artístico: a tentativa de redimensionar a “arte de viver” através do “prazer que cria”, essa miraculosa concepção do novo, do belo. A fecundação de si próprio e a cada nova relação um novo ser. Mas... (nessa vida há sempre um desses adjuntos adverbiais para frear um sonho e dar corda ao tempo) é preciso que haja consciência do ato criador; é preciso perceber o que acontece antes, durante e depois da criação e, acima de tudo, perceber que cada momento é uma extensão (e desenvolvimento) de seu trabalho específico.
O pintor, por exemplo, cria no momento em que pinta. Mas se ele conseguir “captar” seu estado de espírito naquele momento, dar-se-á o inevitável: ele sustentará esse estado até outros momentos, onde ele estará não só com um pincel entre os dedos, mas com uma caneta. Ou ainda com um remo. Ou um brinquedo. Ou uma máquina (até mesmo uma máquina), ou qualquer coisa que seja, e aí ele reunirá condições de dar continuidade ao seu processo de mudança da realidade em que vive (de dentro/de fora). Então, nesse nível de trabalho, poderemos identificar ambos (arte/artista) numa só dimensão: poderemos dizer que o artista transforma aquilo que trabalha com a mesma energizá-lo que irá transformá-lo como ser humano.
É preciso fazer de si mesmo o principal objeto de arte. Fazer de palco, de tela, de cordas, etc, o seu próprio espírito e chegar à síntese de todas as manifestações artísticas: o Homem. E um dia (quando?) descobrir o “viver” como o último ato de criação, ou o primeiro e único de eternidade.

Essas são as observações do artista que sou, consciente de toda a alquimia que isso representa, isto quer dizer que a teoria não sobrevoou minhas palavras.

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